" Edson Lopes tinha 22 anos quando atendeu a ligação que mudaria sua
vida. Era um domingo, 13 de abril de 1969, e ele - um aspirante a
marinheiro - conversava com mais dois militares no pátio da Escola
Naval, no Centro do Rio, onde estudava.
Por volta de quatro da tarde, o telefone tocou. Por ser o mais jovm, Edson cumpriu com a obrigação hierárquica, correndo em direção à parede. Chegou a tempo de ouvir uma pergunta, feita por uma voz feminina :
- A Lúcia está?
Era engano, ali não havia qualquer Lúcia, disse, para logo emendar:
- Mas eu sirvo?
Do outro lado da linha, Aurora Maria, de 20 anos, teve uma fração de
segundo para responder. Ela era filha única, tijucana, recém-formada no
Instituto de Educação. Ligara atrás da amiga Lúcia Regina, com quem
combinara um cinema,e, de repente , por obra do acaso - ou da Telerj -
ouvia uma voz estranha, de um desconhecido, com uma pergunta inusitada.
Servia?
- Serve - respondeu Aurora. - Se for pra bater papo , serve.
Conversaram por uma hora. Edson disse seu nome, Aurora mentiu sobre o
dela ( inventou que era Cristina). Edson disse onde morava, Aurora
mentiu novamente ( contou que era de Copacabana). Edson lhe deu o
telefone da Escola Naval, Aurora respondeu que não gostava de militar,
mas passou a ligar diariamente.
Dali a um mês os dois se
encontrariam ( e ela revelaria o nome verdadeiro) ; dali a quatro ,
trocariam o primeiro beijo. Em três anos estariam casados. Construiriam
uma casa no Itanhangá, teriam três filhos e três netos. Se aposentariam,
abririam uma pequena imobiliária. Estão juntos há 43 anos.
- Acho que é destino. Todo mundo tem seu destino traçado.- diz Edson, hoje com 65 anos.
(..)
Eu chamo isso de acaso e necessidade. Porque se uma pessoa não faz a escolha de se entregar à outra, o acaso não acontece.
Quarenta e três anos atrás, na ligação que caiu no lugar errado, Aurora
Maria se viu diante dessa escolha. Poderia ter dito que não, que Edson
não servia, ligado de novo para amiga Lúcia e partido para o cinema.
-A vida te dá opções, e você escolhe o que é bom para você naquela
hora. - ela diz. -Eu tive a oportunidade de dizer um "sim" . E disse "
E se ...
Revista O Globo.
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