Nada nesse mundo tem mais toneladas do que a saudade, nada. Saudade é
uma dor imensurável e sufocante presente em cada hiato. É sentimento
abstrato que esmaga o peito como se fosse concreto. A saudade é a
vírgula quilométrica enraizada entre dois pontos, dos muitos textos que a
vida infelizmente pausa por falta de prosa e até pelo excesso de rosas.
Saudade afia os ponteiros do relógio, transforma poucas horas em cortes
profundos, dominados por flashbacks com ardor de álcool cuspido sobre
ferida aberta, aparentemente incicatrizável. A saudade nos afoga com as
águas calmas do passado, desfoca o presente e congela o futuro como faz o
frio polar de uma nevasca.
A saudade transforma qualquer música em
motivo para pensar naquilo que partiu dentro de um avião, que nunca
deveria decolar, nem por decreto do Papa.
Ela transforma comercial
de televisão em lágrimas reais, faz homem barbado virar menino ansioso
em dia de natal, como um cachorro que espera o dono todo dia ao pé da
porta, mesmo que esse nunca mais volte pra casa. A saudade enlouquece,
embriaga, faz o mundo todo ter uma só cara e nenhuma cura. A saudade é
um bar que já saiu rotina, um prato de risoto que foi comido antes do
gozo, um beijo único no meio do olho. (..)
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